domingo, 20 de maio de 2012

ESCOLHAS



Depois que me tornei cadeirante essa palavra tornou mais forte da minha vida... ESCOLHAS. Você escolhe se atravessa a rua ou fica na calçada esperando os carros passar, quando escolhemos atravessar uma rua corremos mais perigo, mais a vida é assim feita de emoções... E cada escolha que você faz é um destino que estamos traçando em nossas vidas. Claro que às vezes fizemos escolhas erradas, não somo seres perfeitos, com os nossos erros aprendemos, crescemos, transformamos cada passo, Desde criança estamos sempre escolhendo, não só o que vamos fazer ou não, nossos amigos, quem fica na nossa vida e quem sai, sempre tem aquelas pessoas que temos mais afeto. Não sei se fui precoce em escolher poupar meus movimentos quando ainda usava a minha cadeira de rodas.
Mas, agora já passou dois anos e meio, e ainda tenho algum movimento guardado, hoje penso que fiz a escolha certa, na hora certa, claro que não foi uma escolha espontânea, eu percebi que meu corpo precisava de uma cadeira... Como qualquer pessoa desse mundo temos inseguranças, medos, mais passamos por cima de todos esses sentimentos... Quando você cresce e vira adulto, as coisas complicam um pouco, ou será que nós adultos que complicamos? Isso já é muito complexo para explicações, mais todo mundo escolhe ser feliz, escolhe ter independência. Sei que às vezes precisamos ajuda das outras pessoas, mais tudo que podemos nos virar sozinhos, nós, cadeirantes fazemos, aí já não é questão de escolha e sim necessidade. 
A vida vai e vem e sempre acabamos naquela pergunta: Será que fiz a escolha certa? Bom, isso não sei mais eu tentei de qualquer forma fazer as escolhas certas. Escolhi ser feliz de qualquer forma, escolhi dirigir e conquistar minha independência, sei que isso para um cadeirante é importante, pois nunca sabemos o dia de amanhã... Escolher é criar um caminho, uma direção, a vida recomeça em cada caminho feito, em cada direção que você segue, não tenha medo do duvidoso ou incerto, você tem uma vantagem, pode escolher!

Uma vez eu li uma frase em algum lugar e guardei, e a mesma cabe perfeitamente com esse texto.


“A vida é feita de escolhas e cada escolha é uma renúncia.”

A VIDA SEM ESTÉTICA...


Vocês sabem eu moro em uma cidade pequena, com uma população mais ou menos de 6 mil habitantes, como qualquer cidade pequena, todo mundo conhece todo mundo... E eu não sei o que tem acontecendo com as mulheres e os homens dessa cidade, é gente colocando silicone, tirando culote daqui, um pneuzinho dali e afins... Então eu fico pensando, eu pobre mortal que sofreu um trauma raquimedular, que só queria poder ter uma medula reconstituída e poder me equilibrar nas minhas duas pernas, correr por aí, andar como qualquer ser "normal", claro que são vontades, e todo cadeirante ainda tem essa esperança lá no fundo do seu coração, mais claro não vivo a vida me baseando nessa esperança, eu vivo como um cadeirante o dia-a-dia. Onde meu corpo já não é o mesmo, onde o equilíbrio está cada dia mais difícil, saber que você está sempre precisando de algo novo, algo para se agarrar e acreditar... Claro que é bom estar bonito, ter um corpo legal, se cuidar, ter higiene, passar cremes, se cuidar mesmo! Mais será que isso tudo é necessário? Cirurgias para ter um corpo que você pode perder amanhã? Eu fico pensando nos cadeirantes, nas pessoas que por um acaso da vida estão nesse mundo em uma forma um pouco diferente do "resto"... E ainda somos chamados de anormais, como se isso fosse uma doença contagiosa, não quero me fazer de "coitadinho", mais esse mundo às vezes é tão maluco, quer dizer o mundo não, as pessoas que fazem esse mundo como está... Estamos numa era onde as pessoas buscam perfeição em seus corpos, enquanto pessoas pobres, deficientes, negros não são visto "com bons olhos" nessa sociedade... Que mundo é esse?
Como se uma cirurgia fizesse que essas pessoas fossem mais felizes, como se a vida fosse ser melhor depois da cirurgia, eu penso que as marcas que o ser humano leva pela vida inteira, cada marca no corpo ou na alma tem um significado e essas pessoas estão destruindo essa essência da vida, querendo ser seres imortais, quem sabe? (desculpa, quem não concordar com isso, mais eu tenho que colocar tudo que eu estou pensando pra fora...) Claro quando é uma cirurgia que é a favor da vida, aí sim, eu acho louvável! Como seria essa vida sem estética? Eu sinceramente não sei...

Eu ando de cadeira de rodas, eu tenho barriga, eu tenho marcas no meu corpo , me orgulho dos meus gostos um pouco duvidoso, adoro Renato Russo e já fui ao show dos Paralamas, eu acredito ainda no amor, eu sou meio brega e démodé... Será que ainda sou uma pessoa normal? Acho que sou consideravelmente subversivo, isso que faz a diferença de ser um ser único!!