sábado, 31 de março de 2012

AMOR EM DOBRO





Desde que acidentei e como já utilizava o blog, muita gente me manda e-mail e me adiciona no MSN buscando informações sobre a experiência como cadeirante e opiniões sobre propostas de acessibilidade. Mas o que me chamou atenção nas últimas semanas foi a procura de algumas namoradas de cadeirantes preocupadas com questões sobre o relacionamento e peculiaridades da vida a dois.
O relacionamento em si não tem tanta diferença do que com pessoas normais, nós cadeirantes também somos românticos, gostamos de carinho, de atenção e de beijos, amassos e sexo. Mas o dia-a-dia demanda alguns cuidados. É preciso uma dose maior de paciência e compreensão.
Nem tudo é possível e muito menos fácil na vida a dois. A pessoa tem que entender que a limitação não é só de locomoção. A incontinência urinária, pra mim, é uma das coisas que mais incomoda. Há os coletores e bolsas que permitem uma menor preocupação com isso, mas nem sempre são eficazes. Muitas vezes eles podem estar furados ou podem se soltar, e como a sensibilidade é pouca, a gente não percebe, só descobre quando está com as calças completamente molhadas. Esta situação pode acabar com um programa ou transformar a cama numa piscina. Pode ser chato, inconveniente e até causar vergonha, mas a culpa não é nossa. Aí entra a compreensão, e a mulher se coloca numa situação quase de mãe, tem que enxugar, limpar, trocar a roupa, do jeito que fazemos com bebês. E ainda é preciso ajudar para se vestir, calçar sapatos e desmontar e montar a cadeira de rodas toda vez que sair de carro. Do nosso ponto de vista, chegamos a um grau de intimidade que jamais imaginamos. E sabemos dar valor a isso.
E só isso já é uma imensa vantagem em namorar um cadeirante ou qualquer pessoa com deficiência. Quando a pessoa se propõe a compartilhar o dia a dia com alguém com deficiência, sabe dos problemas e inconvenientes possíveis, e mesmo assim se dedica sem restrições, o deficiente retribui em dobro, seja porque a pessoa já tem essa qualidade ou porque aprendeu o quanto é difícil levar uma vida normal com deficiência.
Como hoje em dia é tão difícil saber se as pessoas gostam de verdade de nós, nos amam incondicionalmente, o deficiente enxerga isto claramente nas atitudes de seu companheiro (a). Não dá pra fingir pro resto da vida que está gostando de determinadas situações, as atitudes com o tempo mudam se não forem verdadeiras. E uma coisa que aprendemos ao nos tornar deficientes é valorizar quem nos dá apoio. E do outro lado, este valor é sentido e retribuído.